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Barriga Mendinha

Barriga Mendinha

A vida que tem de ser

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Nem sempre somos o que queremos. Fortes constantes, coerentes. E nem sempre o que sabemos que  "a vida que tem de ser"... nos faz sentir bem.

 

E apesar de saber que é suposto e tal e tal...o meu coração não anda a conseguir lidar com a ausência do "filho do pai separado". Pronto, tenho dito. Ando mesmo a sofrer com isso, anda-me a fugir pelas mãos (tanto o filho, como a situação) e  tenho andado a sofrer em silêncio. E não se pode fazer basicamente nada.  Pronto. A não ser... escrever um texto como este para ver se alivia e se encontro "cúmplices" neste sentir.

 

Tem a ver com a minha vida, com a minha rotina, com o fato de eu estar a voltar a estar muito fora aos fins de semana e ele estar com o pai de 15 em 15 dias. Tem a ver com o fato de muitos dos que "me calham" ele acabar por ficar com a avó ( adora, atenção e é até muito saudável mas.. mas.. eu não estou presente...), porque eu estou de viagem a tocar. Não é algo que consiga prever. Muitas vezes, as datas surgem 2 ou 3 semanas antes, outras até menos e já há coisas combinadas do outro lado, perfeitamente legítimo. 

 

E depois vêm-me todos dizer: mas olha, não fiques assim, ele está contigo durante a semana, aproveita sem stress..". Sim, está... mas durante a semana há a escolinha, as atividades, eu sempre cheia de afazeres, o restaurante, sinto que é "acordá-los, arranjá-los, deixá-los... passar o dia, apanhá-los, arranjá-los, deitá-los...". Preciso de manhãs de ronha com ele, de ficar 48 horas dedicadas ao meu caracolinho. Preciso de o sentir perto sem estarmos sempre de horas marcadas para tudo... Preciso da minha Luz. Do meu Luz. Sinto-me apagada sem ele.

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 Existe ainda outra coisa e que tem a ver com uma sensação de injustiça, perante a minha permanência com a  irmã, uma espécie de desiquilibrio no meu "estar" com cada um deles, com quem eu sinto e sei ( eu sei. Ele, acho que ainda não equacionou isso) que estou muito mais tempo. Algo inevitavel, porque ela "é permanente". Não há pais separados e está sempre "deste lado". Ok, ok, continuo a ir para fora, trabalhar, continuo a não estar todos os fins de semana, mas estou muitos outros estou presente. E só as duas, sem mano. Umas vezes com o pai, outras com ele a trabalhar no restaurante e noutros trabalhos, por isso, também muitas vezes só mesmo as duas. A criar laços que sinto que me estão a começar a falhar com o mais velho.

 

Não posso, nem quero, no fundo, fazer nada.  Porque não posso nem quero deixar de trabalhar ( nos meus horários irregulares...) porque ele não pode deixar de ir para a escola para estar comigo (já o cheguei a fazer uma ou duas vezes, mas como acho que as rotinas são importantes de manter, tento não o fazer muito), porque o pai e a família dele têm tanto direito de usufruir de tempo de lazer com ele como "os de cá". Mas quero, aqui, deixar que sinto e fazê-lo sem pudores, porque acredito que haja muita mãe separada que se passe por esta dor inevitável de quem sente que se lhes é arrancando um pedaço de si, ao perceberem que as contingências da vida, as fazem afastar de quem mais amam. Mais ainda... para quem, tem filhos de pais diferentes e passa a vida a tentar perceber se dá a um o que dá ao outro, que tenta compensar mas também não sabe bem como, que sofre porque a família nem sempre está completa...

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A outra pirralha também se queixa de saudades, quando o irmão não está. Principalmente quando está na rotina caseira e comigo. Chega a ordenar-me : "Vai buscar Axonxo Mãe! Vai!".. e a mãe: " Ó filha, não posso, ele está no pai João... ;("... Mas depois... ele surge e as saudades passam a ciúme e embirrice e ele, que é um doce, acaba por ser quase ostracizado por ela, que se passa cada vez que me chego a ele e ele a mim. Faz jogos de birras, afasta-nos, chega a dizer " A mae é shó mia!!" e no fundo, até deve acreditar nisso, porque me teve dois dias inteiros só para ela. A enroscar-se em mim, a brincar com ela sem outro foco de atenção a distrair-nos, a dormir num determinado sítio na minha cama... que depois... o mano chega e.... também quer! No fundo, acaba por não ser culpada deste "marcar de território", o que ainda é mais difícil de gerir, porque não a quero assim.... mas percebo o porquÇe de estar assim...

 

Sinto que "a vida que tem de ser"... nos está a afastar ao ponto de ele um destes fins de semana me dizer. "Ó mãe, mas hoje não há escola?"... " Não filho! É sábado!!"  E ele: " Mas os sabados e os dias sem escola não são na casa do pai? ".... ;( 

 

E pronto... sem mais que dizer, contar, queixar, choramingar, teorizar, só agradeço poder partilhar ( e espero que sem dedos apontados ou críticas) este sentimento com tantas mães ( e sim, porque não pais) que vivam algo parecido.. um misto de culpa ( sem haver culpa nenhuma), tristeza, impotência e medo de estar a errar na educação emocional destes dois pequenos seres ( ada um por razões diferentes) e ... saudades constantes de uma realidade que está longe de ser aquela que eu sonhava quando quis ser mãe. 

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Sabem que mais? Cada momento tem que ser aproveitado, saboreado à séria. Porque o tempo é tão curto e passa tão rápido... Porque ao não nos conseguirmos duplicar, não podemos chegar a tudo o que queremos e ao não chegar a tudo o que queremos.... a nossa felicidade vai sendo vivida às fatias. E como seres insatisfeitos que somos...normalmente parece-nos sempre, que à fatia que temos no prato, falta sempre algum ingrediente extra. E para mim... impossível na permanência, mas maravilhoso quando acontece... as minhas duas fatias juntas (de seu nome "meus doces filhos") completam aí sim, o bolo mais saboroso do mundo!

 

Ai, ser mãe é mesmo ter o coração ( muitas vezes a doer) fora do corpo... Porra!!

 

Sobre a ida dela para casa "do pai dele"...

Este fim de semana foi importante. E memorável na história da minha família.

 

Enquanto, lá fora, tristemente as desgraças afetavam a vida de centenas, aqui no nosso (ainda) cantinho, a mãe Rita foi trabalhar para o Norte. A vida "normal", dentro do "não tradicional" que é vida aqui desta nossa família Mendinha. Eu fui para Guimarães e meninos ficaram, como tantas vezes, por Lisboa.

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Como sabem, a minha vida é assim. Sem rotinas e com muitas saídas para fora. É a rotina, fora da rotina... e nós já nos habituamos assim a ela.  A diferença deste fim de semana foi... a "distribuição" das crianças. Normalmente, cada um fica no seu pai. Ou com as avós. O Afonso com o pai João, a Matita com o pai Hugo ou, quando assim não pode ser, ambos com a avó Clara, a minha mãe. Desta vez abrimos um precedente e um tão bom precedente. Um do qual me orgulho muito e que espero que seja a porta aberta para um futuro melhor, principalmente para eles, as crianças.

 

Neste caso não falo só das minhas. Acrescento uma ao "rol", passam a 3, nesta história, porque, talvez muitos/as de vocês não saibam mas o nosso Afonso Luz, tem um outro mano de 2 anos, do lado do pai... um mano, sobre o qual a Matita já começa a levantar muitas questões. Já pergunta por ele, quem é, onde está, em que escola anda, quem é a mãe...são perguntas normais de uma cabecinha inocente como a dela. E ultimamente, chorava quando via o irmão a entrar no carro do pai e ir com ambos embora. Nada de anormal, no entando... faz parte do desenvolvimento. Faz parte da história da nossa família. Faz parte das consequências das escolhas que eu, como mãe, fui fazendo, conscientemente para todos. Mas... há sempre um mas...

 

Mas a verdade é que eu ficava com pena. Não deixava de ficar de coração partido ao ver a minha Estrela tristinha e cada vez mais, crescia em mim uma vontade de que os irmãos do Afonso tivessem uma relação maior um com o outro. Maior e principalmente melhor. Sim, porque se continuasse a ser esse o único contato entre os dois ( verem-se nas entregas do irmão aos fins de semana), sentia que não estava a ajudá-los a criarem a identidade certa um do outro. Era algo que andava mna minha cabeça há um tempo. E nas converesas com ambos os pais... tinha receio que a Matilde começasse a sentir ciúmes, vazio, porque a indifinição do que é o "outro lado", o lado do "pai dele" ( como diz a Matita) já se via que lhe começava a fazer confusão... E por isso... este fim de semana.. ela foi para lá! Siga!!

 

Pois bem, antes do "big event" conversámos todos os pais ( sim, porque no fundo, são 4, aqui, os envolvidos e "cada cabeça com sua sentença") e decidimos fazer a experiência. A mana de cá foi conhecer o mano de lá e passar uma noite e um dia na casa do pai do Afonso. E nem vos conto a felicidade de todos ! O Afonso Luz, então, nem cabia em si de contente. Quando lhe disse que a mana ia com ele para casa do pai João, disse-me em extâse: " A mana vai para casa do meu pai, a primeira vez!! E vai dormir comigo e com o mano Filipe! Uau! Boa mãe, boa!!" E nem vos conto também  como a sua reação me encheu o coração e o orgulho que sinto em saber que vou, assim conseguindo, fazer um caminho que nem imaginei existir, mas que me vai fazendo cada vez mais sentido....

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 E assim foi ela de mochilinha já feita para a noite, para a escola, na sexta feira,eu lá avisei as auxiliares e professoras que não estranhassem que o pai do Afonso levasse ambos esse dia, que assim tinha sido decidido por todos. E lá aconteceu então tudo, da forma mais natural possível. A mulher do João, a Vânia também tem um coração grande e recebeu em sua casa a minha menina. E em vez de uma criança ( no fundo só tem um filho..)... aturou três essa noite e esse dia... e pelo que sei, correu muito bem.

 

Ficou a vontade para repetir e tenho a certeza que os miúdos também e quem sabe um dia destes não sou eu a receber em minha casa o mano Filipe, sabendo que então aí... os brilho nos olhos do meu filho seria ainda maior. A ver vamos. Um passo de cada vez. Mas o primeiro já foi dado e com ele muita satisfação entrou nas nossas vidas, garanto.

 

E assim se faz, pouco a pouco, o caminho de uma vida. E assim se tomam decisões, que ao parecer gotas pequenas no grande oceano que é o mundo, se tornam enormes na vida familiar de crianças que têm a personalidade em construção.

 

E que bom que será, se ao sentir no futuro que a sua mente aberta, o seu sentimento solidário, o seu viver longe de sentimentos como o preconceito,a raiva, a diferença, o ciúme, a inveja... possam também  ter vindo de uma génese que nós, os pais destes pirralhos, lhes conseguimos ensinar, não só com palavras, mas também com atos.

 

E sabem que mais? Não há mesmo ninguém como um irmão... seja ele meio irmão, irmão "verdadeiro" ou irmão de coração. E esse legado é o que mais lhes desejo deixar.