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Barriga Mendinha

Barriga Mendinha

O cérebro do coração






Ainda não percebi muito bem se o coração tem cérebro. Será que o sangue o bombeia tendo por única razão a rotina imparável dos batimentos cardiacos ou será que os litros o afagam à sua passagem só porque acham que lhe sabe bem?


Sempre o vi afastado da razão e perto do sentimento mas ultimamente uma ideia insistente tem alterado a minha forma de o olhar. Lá dentro, bem no fundo, esta máquina destemida não me parece ter só sentir, nem só medo, nem só amor, nem só adrenalina ou ritmo. Lá dentro, bem no fundo, o coração anda desatinado pelo pensamento, o que me parece cada vez mais incoerente, já que pensamento vem da cabeça e não surge do tórax.


O Coração, esse que sempre acreditei ser o mais puro dos órgãos, mesmo quando poluído pela insensatez ou pela frieza, parece-me, cada vez, uma peça do puzzle. Que pena. Eu, que o julgava único e implacavelmente auto-suficiente.


Acho que ele se torna, com os anos e os dias e as horas a passarem por ele, um chico-esperto. Ele sabe o que lhe convém e foge do que o magoa e lhe causa arritmia. Sim, eu acho que ele tem cérebro. Um cérebro pequenino que o faz saber o que quer, mesmo que essa certeza não seja a sua melhor conselheira.

Um dia...




Apetece-me tanto partilhar este poema. Só eu sei porquê mesmo sem haver muita razão para isso agora. 

Um segredo que me faz sentir Musa, especial, palavra eterna e coração na boca.

A poesia e a música. Recorro-lhes nos  momentos em que preciso de acordar a sensibilidade artística.




" um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,

acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.

e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.

um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for

tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada

de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da

nossa janela. 

sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso

será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi

nem uma palavra, nem o príncipio de uma palavra, para não estragar

a perfeição da felicidade."

José Luis Peixoto