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Barriga Mendinha

Barriga Mendinha

Aylan e Galip: 3 e 5 anos. A idade dos meus filhos...

Aylan tinha três anos. Galip, o irmão, cinco.

 

A idade dos meus filhos. Meu Deus! Não tenho pensado noutra coisa. No meio dos meus afazeres, das minhas rotinas, do sorriso e das birras dos "meus 3 e 5 anos" cá de casa ( fazem ambos em Outubro, falta só um mesinho, e posto tudo isto, só penso... que um dia pode fazer a diferença na vida de uma mãe, de uma família, de crianças como estas ou como as nossas).

 

Eram filhos de Rihan e de Abdullah, um casal que viajava junto com os seus pequenos tesouros assustados mas valentes... que buscavam uma vida melhor. Mais justa e sem terror. Uma Vida. Ponto.

  

 

Atravessaram vários quilómetros através da Turquia até chegar o momento ao mar Egeu rumo à ilha grega de Kos — a rota entre Bodrum e Kós é uma das mais curtas a ligar a Turquia às ilhas gregas, totalizando um percurso de cerca de 21 quilómetros. 

Eles e a mãe morreram naquela praia turca. Tinham vindo da Síria, estavam na Turquia e sonhavam com o Canadá que lhe recusou asilo. Só o pai sobreviveu. Eles tinham nome, caras, sorrisos, sonhos, já tinham experimentado uma "vida normal" como a nossa, a que levamos, aqui neste cantinho à beira mar plantado, esperando, ou fingindo que o mundo vai bem e que o nosso dia-a-dia anestesia dores, medos, injustiças...

 
Das minhas pesquisas e leituras que tenho quase um pouco obsessivamente feito, nestes últimos dias sobre esta crise na Síria, sobre os porquês, sobre os voluntários e ONG´s, sobre os refugiados... dei de caras com estas fotos. Simples, verdadeira, uma foto igual à de tantas crianças em tantas famílias. sorrisos ingénuos de meninos que podiam ser os nossos. Eles e o seu peluche. Eles a fazerem gracinhas para os pais. Eles a desenhar o mundo inteiro na sua inocência...
 

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“A Europa não o pôde salvar”, “O fillho de alguém”, " Uma criança é um mundo inteiro"...titularam os jornais. E assim Aylan virou um símbolo da sua própria desgraça. E assim, a imagem do menino, ja morto nos braços do mar, do mundo, de um militar em serviço... tocaram mais que tantas outras, não pela indiferença mas talvez pela dormência em que esta sociedade nos incumbe a viver. E assim, não tenho ( nem eu nem tantas outras mães e gentes de coração e estômago...) conseguido dormir como deve ser. E assim, ando a pensar em como agir e não falar em lamentos e queixas momentâneas da vida e do mundo...

 

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 E os fatos? Os fatos foram estes. Os que se seguem. Fica a descrição para os mais desatentos. Se isso me importa mesmo? Sim, para perceber o percurso e sonhos desta gente em pânico e que tentam tudo mas tudo para salvar a família de uma vida a que nenhum ser humano devia ser submetido. Não. Porque a história é igual à de tantos outros que nunca chegaram a ser conhecidas. E todas elas deviam servir de bandeira a um movimento contra a injustiça do mundo...:

 

"Aylan Kurdi tinha três anos e era o irmão mais novo de Galip, de cinco. O filho de Rihan e de Abdullah. A família viajava junta e atravessou vários quilómetros através da Turquia até chegar o momento de cruzar o mar Egeu rumo à ilha grega de Kos .O objetivo era alcançar a Europa. Deixar o país que o viu nascer e que o condenou a conviver com um conflito armado — atirar para trás das costas a Síria e os destroços causados pelo autoproclamado Estado Islâmico. Fugir da guerra e agarrar a vida noutro local, na segurança do solo de países da União Europeia, uma espécie de terra prometida à imagem e semelhança do que um dia foram os Estados Unidos para quem tinha os bolsos fundos de esperança e vazios de dinheiro. O sonho deles era da Europa partir depois para o Canadá.

 Aylan, Galip e Rihan nunca chegaram onde queriam. As duas crianças e a mãe não tinham os respetivos coletes salva-vidas quando a embarcação em que seguiam se virou no escuro da noite, cerca de 30 minutos depois de ter deixado a localidade turística de Bodrum, na Turquia. O pai, esse, conseguiu chegar a terra e vencer a agitação do mar. Alcançou a terra e o futuro idealizado, embora sem poder partilhá-lo com o resto da família.

 

Abdullah, o pai, segundo o “National Post”, do Canadá, tem agora um único desejo. Voltar a Kobani, a cidade síria de onde partiu, e onde quer enterrar a mulher e os filhos, e onde o Estado Islâmico já não muda porque as forças curdas levaram a melhor em janeiro. O sonho de se juntar à irmã no Canadá morreu na praia.

 

“Ouvi as notícias às cinco da manhã”, contou Teema Kurdi, a irmã de Abdullah, ao National Post — que mora em Vancouver, no Canadá, onde trabalha como cabeleireira. Foi a ela que a família inicialmente se quis juntar. Pediram asilo ao Canadá, mas o pedido foi recusado por problemas com a Turquia. “Estava a tentar financiá-los e até tinha amigos e vizinhos que tinham feito depósitos bancários, mas não conseguimos os vistos. Estava a pagar-lhes o aluguer da casa onde moravam na Turquia, mas é horrível a forma como lá tratavam os sírios. Por isso tentaram sair de barco”. Uma viagem fatal."

 

Fonte dos fatos descritos: OBSERVADOR.PT