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Barriga Mendinha

Barriga Mendinha

Ter Sorte... é.... acreditar que se tem sorte!

                    

Há uns dias atrás a Matilde caiu.. mas caiu, tipo assim coisa valente.

 

Estavamos num shopping com pouca gente e connosco, estava também o Hugo, o Afonso Luz e a minha avó Nor. O Afonso brincava saltidando de sofá em sofá, aqueles que há nas pracetas de alguns centros comerciais e era, basicamente nele que eu estava focada. Mais nele até, do que na Matita, porque ali naqueles saltos e equilibrismos nos braços das cadeiras é que eu estava a adivinhar um tombo...

 

Bastaram uns segundos para a marota da Matilde começar a subir as escadas, olhei mas não liguei muito. Ela anda à descoberta. A aprender com o seu corpo, a entusiasmar-se com cada movimento e desafio superado. E naquele dia, era a escadaria. A minha avó estava lá, por isso... achei que estava tudo seguro (sabem aquele pensamento de mãe que nem é bem pensamento é só tipo, um esgueirar de olho, para ver se está tudo livre de perigo??Pronto, foi isso..).

 

Ela sobe um degrau, dois, três, quatro. Eu refilo com o Afonso e digo: "olha que ainda cais!" ... Não caiu ele.. Mas caiu ela. E caiu em silêncio. Só vi de soslaio, mas o que vi assustou-me imenso. Umas cambalhotas tortas e quase em câmara lenta desde o quinto degrau, até ao chão frio de azuleijo. Toda torta, toda desamparada e quase, quase bateu com a cabeça nos degraus, que por milagre parece que se "abriram" atrás para deixar passar a sua cabecinha entre as esquinas deles...

 

Um pânico instantâneo no meu âmago animal de Mãe instalou-se num segundo. Vi-a ainda a cair desamparada e um barulho seco do bater das costas fez eco em mim(acho que foi isso mesmo que a safou). Corri a agarrá-la (no fundo, não foi bem uma corrida, foram 3 passos...). Ela choramingou... mas aparentemente nada se passou para ela. Eu é que tremia como vara verde.

 

Tentei perceber o que se tinha passado. Então, eu estava aqui tão perto e estou sempre tão atenta aos dois... Então a avó Nor estava a dois passos da baby... "Então... e a avó Nor não fez nada? Nem lhe alcançou a mão!", pensei eu toda nervosa e revoltada... Pois. Pois não, na altura não me ocorreu mas percebi depois, mais calma que a avó tem os reflexos de uma velhinha de 86 anos... e que não tem força para apanhar uma bebé de 13 quilos, nem a rapidez que nós temos para se aperceber que a queda estava a acontecer. No fundo... eu é que achei que ela estando "ali", a Bebé estava bem...

 

Erro meu. Esse. O de estar a achar que o Afonso ia cair e não olhar um minuto para ela, o de delegar funções quando só eu é que tenho que cuidar dos meus filhos... sim, sei que pode ser um exagero pensar assim, mas foi inevitável senti-lo. E assim passei rapidamente a culpa do pouco apoio da avó para as minhas costas largas de Mãe... que apesar de não ter culpa efetivamente... me sentia com ela, porque .. "Mãe é Mãe e tem que estar em todo o lado"..

 

O episódio acabou por não correr mal, o susto passou rápido (aos outros..) mas eu fiquei ainda tanto tempo a pensar nisso (ou não estaria a escrever sobre o tema...). Principalmente a pensar como somos nós, impotentes, perante um acidente. Como a culpa deve afetar quem se vê envolvido numa situação de acidente com um filho. O pior pesadelo pode acontecer na situação mais estúpida, num simples momento de desatenção (nosso... e de Deus). Que sensação estranha e que me deixou a tremer por fora e por dentro.

 

Depois de alguns dias a matutar no assunto (uma sensação também sublinhada, assumo, pelas  mediáticas mortes do filho da Judite de Sousa e de 3 crianças num acidente de moto-quatro) cheguei à conclusão de que a atenção e as medidas de segurança são, como é claro, importantes, mas o destino pode ser lixado... Acho que quando tem que acontecer, acontece, quando não... lá nos conseguimos safar e aos nossos.

 

Não há muitas razões para que uma queda aparatosa daquelas não tivesse deixado um arranhão e a minha catraia se tenha assustado menos que com muitos tropeções. Tal como, às vezes, não há também muitas razões para que uma criança se engasgue e sufoque, seja atropelada, mordida por um cão, se afogue ou... seja roubada por um desconhecido... Ai que horror de pensamentos... e nem os digo em voz alta, só os registo aqui porque sei, que quem é Mãe de coração e mão cheia... pensa nisso tanto como eu.

 

Sorte? O que é isso?? Basicamente a palavra mágica. A energia que queremos atrair, a a direção que esperamos que todos estes precauços de vida tenham como destino final. E pronto é isto.. cabeça de Mãe, não pára. Pois não?...

 

E ter Sorte é... basicamente... acreditar que se tem sorte!!  Não acham? Não há mais nada a fazer... E depois, seja o que Deus e o Destino quiserem...

Amen...

                    

Nesta avenida que piso, tu passeavas também...





Para além da dor natural numa situação destas.. dou por mim, enquanto dou passos largos a caminho de casa, a pensar... que a Vida é mesmo breve, damm!!

... Ainda "há uns dias", eu brincava e vibrava com as conversas e com a voz poderosa da Tia Celeste. E hoje, ela e os seus 85 anos, foram-se embora..


No velório, pedi-lhe que, ao chegar "lá",  beijasse a avó Gi e o Avô Zé e que ... Não, não que lhes dissesse a falta que fazem,  porque eles sabem-no bem (principalmente a mim, nos momentos em que preciso encontrar o caminho e me sinto a cambalear  no escuro)... Mas que ... os brindasse, antes,  com a gargalhada que dela me lembro e que os 3 se sentassem a contar as novidades e a ironizar com elas, como tão bem os 3 fizeram sempre em vida !!

 Sim, divertidos e a mandar força genuína para nós, através da boa disposição de que tanto precisamos/preciso para ultrapassar os "pequenos grandes males" que se nos vão colando à pele, à alma e ao dia a dia.


Também  o tio Centeno, de quem ela morria de saudades, a esperará .. Mas esse encontro é só deles.

E também a minha querida bisa Alice,  ai que saudades...

Ela estará por lá, de braço dado com as amigas da época, para a acompanhar nas passeatas regadas com conversa trivial, tal qual fizeram anos a fio, aqui pelo perímetro da Avenida de Roma...

A mesma Avenida, que eu, ainda hoje, ainda viva, ao voltar agora, no silencio da tua despedida, Tia, piso.  A mesma Avenida, que com os meus Filhos, vossa descendência, calcorreio todos os dias ao vir para chegar até casa, numa rotina que é agora minha, mas que já foi a de outras gerações...

Nós somos ainda um pouco de ti Tia celeste. E de ti Avó Gi. E de ti Avô Zé. E de ti Bisa Alice...

E assim, as memórias nos fazem viver, sendo por vezes, necessário o impacto e a força deste sopro da Morte, ao levar mais um dos nossos, para nos "acordar" e querer, efetivamente... Viver. Ter medo do tempo que passa e querer aproveitá-lo da melhor forma, não só "estar por estar"...

Querer Viver por nós mesmos. E por vocês, que já se foram.... mas que, no entanto, merecem o nosso respeito, e a homenagem da vossa continuidade.

Tentá-lá-ei honrar todos os dias, juro ... E quando não conseguir ... Conto com uma das vossas gargalhadas inesquecíveis ( é impressionante como a memória visual me trai... mas a auditiva não...) para me darem nas orelhas, orientar com sabedoria e perdoar, Perdoar, acreditando de novo em mim, nas minhas capacidades, na minha força e ignorando as almas negativas e destabilizadoras.

Sempre com um sorriso e uma palmada bem disposta. O vosso sorriso e a vossa palmada, que a partir de certa altura, já se confundem com o que me pertence também. porque em mim, vos tenho a vocês, tal como acredito acontecer com a maioria das pessoas sensíveis e ligadas à família...

Boa viagem Tia / Mulher ... Celeste.



Bom descanso. Bons reencontros.