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Barriga Mendinha

Barriga Mendinha

A Leonor e o Pai




Ser pai não se explica nem se consegue descrever. Acontece simplesmente quando se é. Porque o que se sente se transforma de maneira tão absurda e completa que, sem mais nem menos, passa a fazer sentido. Tudo passa a fazer sentido. A Rita pediu-me um texto sobre esta aventura de se ser pai. Haveria tanto por dizer... que optei por contar uma história, que só os pais vão entender!

Há três anos, à hora do costume o telefone tocou cá em casa. Assim que atendi, um grito 'Pai, já sei escrever pai!'. Fiquei em silêncio uns segundo, poucos mas os suficientes para Ela me sentir a falar 'tás a ouvir? Já sei escrever pai e papá'. A Leonor, tinha acabado de entrar para a escola e estava a descobrir o caminho das letras e com ela a emoção das palavras. Cá por casa sempre se leu muito, sempre se contaram histórias. O que Ela mais gosta é de livros, de imaginar, de falar... A Leonor é a alegria de todos os dias, poderia dizer que era especial , mas todas as crianças o são. O que eu quero, é que no meio de tantas letras e palavras, com o tempo ela entenda a o importante que isso é. Quando o telefone se desligou no velho truque do 'desliga tu primeiro... 1,2,3... Oh! Não desligaste!!', fiquei outros tantos segundos encostado à parede tal como estava. Inerte, com vontade de congelar aquela felicidade.

No peito, o orgulho do dever cumprido e a certeza de que este é o caminho... Passaram três anos e noto agora que num devagar  cheio de pressa, vão crescendo. Hoje, olhei para a Leonor a subir apressada a rua que nos leva à nossa casa do Alentejo. Ia a fazer uma birra, nesta idade é normal. O passo largo, seguro, quase assustadoramente independente, chamou-me a atenção. Enquanto subíamos a rua, aproveitei para a fotografar. A memória é muitas vezes traiçoeira, gosto de registar para guardar. Num instante me vieram as imagens de quando era muito pequena, e para subir a mesma rua, tinha que ir ao meu colo, depois arrastada lentamente pelos seus pequeninos passos com sapatos coloridos e mais tarde aos ombros, como tanto gosta...

Está grande a minha filha! São oito anos e olhando assim de repente, parece que foi ontem. A rua fez-se mais pequena para ela. Num instante se mete em casa. Já não é segredo para ninguém que sou saudosista, que me apego às memórias, que invento um futuro. Gostava que este meu futuro passasse por esta rua, com ela, muitas vezes apressada e resmungona, mas de olhar à espreita, à espera de um sinal para eu dizer, ' eu levo-te aos ombros!'. E aí, ela franze a testa, e como se me estivesse a fazer um favor, diz, 'Mas cuidado, que eu não quero cair!'. E assim será sempre, enquanto eu conseguir: levá-la aos ombros e protegê-la das quedas. É assim que tem que ser, até ao dia em que os papéis se invertem, e em que precise eu dos ombros dela...

E sabem  o que penso quando estou muito cansado ou naqueles dias que todos temos mais tristes, muitas vezes sem razão...? Olho para uma fotografia da minha filha e leio-lhe nos olhos grandes que me quer feliz e cheio de força com o coração a ritmo certo e a emocionar-me com as suas descobertas diárias e tão absolutamente nossas. A rir-me com os seus exageros... Quando me atrevo a reclamar de qualquer coisa, imagino que ela me abre os olhos e me diz 'pai! Se eu não estou cansada, tu também não estás. És maior que eu!'- Se é suposto ser assim, é assim que será. Mas quem tem filhos desta idade sabe que eles podiam nem dormir, que nunca estariam cansados. Ou estou enganado?

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