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Barriga Mendinha

Barriga Mendinha

Vivi ontem, o pior pesadelo que mãe pode viver...

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Acredito quem me viu ontem, pelos corredores do Ikea de Loures a meio da tarde, de lágrimas a cairem pelo rosto e a conter os gemidos, me deve ter achado mesmo louca varrida ou a passar-me "sabe-se lá porquê"... enfim... digo-o agora, porque agora, depois de tudo ter acontecido, me lembro de alguns olhares reprovadores, de curiosidade mórbida e alguns até meio gozões... (Shame on you!!) Mas sinceramente na altura, durante 10, 15 minutos (que me pareceram uma hora), estava a borrifar-me efetivamente para isso. Ontem, passei (quase) pelo pior pesadelo de uma mãe. A esses, aos que podem ter visto, aqui fica a explicação. Aos que não, a alerta...

 

A mudança está feita, mas as arrumações da casa e os pormenores de decoração continuam a ser ultimados. E todos estamos envolvidos e entusiasmados com isso, até os miúdos, que adoram vir às grandes superfícies "escolher coisas" connosco. No IKEA, então é uma maravilha. Adoram petiscar, almoçar, estar na zona das crianças a brincar e "esconder-se" nos itens expostos para gáudio das crianças e para pânico dos pais. Principalmente para pais de miúdos da idade do meu Afonso que adora brincar às escondida seja onde for, por mais que eu lhe explique que ao fazê-lo, principalmente na rua me está a pregar grandes sustos...

 

E assim foi. Pleno domingo. Ikea cheio. De adultos e com muitas crianças por todo o lado. Ouviam-se muitos miúdos cansados e em birra, os nossos felizmente estavam bem. Ora dentro do carrinho, ora um empurrava o outro, ora às nossas cavalitas. No fundo, nós, os pais, apesar de estarmos de olho nos móveis a comprar, também estavámos a passar um momento fixe em família. Fomos aos cachorros e aos gelados, eles brincavam com os divertimentos infantis que em muitas das secções por que passávamos. A verdade é que o Ikea está feito para famílias e esses spots dão muito jeito para os entreter uns minutos e depois voltar ao "circuito" a seguir. 

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Carrinho já cheio. Voltámos à secção de criança. A minha mãe liga-me, eu atendo e vou falando enquanto caminho, o Afonso está ao meu lado e entra num quatro infantil ( de princesa, tipo a imitar um castelo). O Hugo vem atrás com a Matilde. Eu olho para os ver e confirmar que estão no nosso encalce.

 

Desligo o telefone e, 2 segundos depois... "Afonso?? Afonso??? Afonso onde estás!!? Hugo, viste o Afonso? Procura aí desse lado! espera vou ver aqui aos túneis e baloiços! Afonso!! Nada... Espera, vamos só ali ver dentro dos armários, não vá ele ter-se escondido como adora... Afonsinho!! Luz!! Onde estás!?.. Nada? Hugo!! Agarra na Matita... vai, procura. Vamos cada um para seu lado. Sim...vê debaixo das camas.. Afonso?? Afonso Luz! Não te escondas... Vá Hugo, esquece o carrinho. Deixa-o aí. Vamos cada um para seu lado..."

 

Um minuto de procura ainda tudo minimamente tranquilo até surgir a aflição, que não tardou. Olhava à volta e via milhares de crianças. Cada uma que gritava " mamã!!" eu achava que era ele. Mas não era. O meu coração começou a bater mais forte. Uma senhora, que brincava com a filha, apercebeu-se, perguntou-me como ele era e disse-me que há coisa de 3 minutos estava a brincar ali na zona dos baloiços, que o tinha visto. Mas agora não... Começo a caminhar mais rápido e sobressalatada a ver em tudo o que era armário, baú... nos peluches..

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Uma funcionária vem ter comigo e pergunta-me como é que estava vestido, carateristicas, nome, diz que vai avisar todos os funcionários e segurança.. eu começo a perceber que pode ser sério, que pode ser real. Eu peço-lhe que não faça "estrilho, espalhafato", sempre me ensinaram que no caso de desaparecimento de uma criança nunca se deve avisar a viva voz, pois se algum pedófilo ou sequestrador andar perto, vai ficar atento a uma criança com essa descrição e torná-la um alvo fácil. Ela prometeu-me que não.

 

Ao longe, via o Hugo, a dar passos largos, quase a correr de secção em secção com a Matita ao colo que não percebia nada. Estava já tão em pânico que me contou, depois, que chegou à escada rolante e parou-a, no botão de emergência, deixando todos boqueabertos... A funcionária, deu o aviso a nível interno e eu, que já o procurava fora da zona das crianças que (achava eu) já tinha passado a pente fino, oiço nos altifalantes do espaço: " atenção a todos os colaboradores!! Código #"@!% na zona criança. Todos a postos::". E pronto. Foi aí. Era real. Estava a ser dado um alerta...

 

Foi aí que se me foram as maneiras, a cerimónia perante as pessoas e o meu estado de nervos transpareceu para fora e foi aí que um bom largo número de pessoas me deve ter visto a chorar, a tremer e a gemer enquanto tipo barata tonta, olhava para todos os lados, acotovelando alguns clientes para conseguir passar mais rápido. Foram os 10 minutos mais compridos da minha vida. Passei por um espelho e vi a minha imagem de relance. Cara muito vermelha e lágrimas que mesmo a tentarem ser evitadas, me escorriam cara abaixo.

 

De repente, a rapariga que tinha dado o alerta faz-me um sinal. aponta para o fundo da sala... e lá vem um senhor (por sinal fantástico e atencioso, ainda me levou a beber água para me acalmar) com o Afonso pela mão, ambos tranquilos com o ar mais normal do mundo... que, segundo ele.... esteve o tempo todo a brincar dentro de um castelo, escondido dos "guerreiros que vieram das masmorras da princesa", o tal quarto onde ele tinha desaparecido, por sinal.

 

Pensei em zangar-me mas não consegui, nem tive forças. Tentei conter ainda as lágrimas mas achei que ele tinha que sentir o que se tinha passado e agarrei-o, sentei-o, com calma numa mesa alta, agarrei-me  a ele e disse-lhe: " eu não me vou zangar, mas vê como a mamã ficou nervosa e aflita por achar que tinhas desaparecido, por pensar que te podiam ter roubado...Afonso, precisas de perceber que há pessoas más, que procuram os meninos em sítios assim com muitas crianças, e que as levam das famílias delas.. entendes? E a mãe julgou que isso tinha acontecido... tens que me avisar se fores brincar ou esconder-te...Podes perder-te... por favor...A mãe imaginou que podias já não estar na parte das crianças e estar atabalhoado e assustado aqui neste shopping tão grande e confuso... amor... que grande aperto no coração da mãe..." 

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 Abraço-me, viu-se que ficou melindrado, mas depois disse: "Ó mamã, eu não deixo que essas pessoas me levem, eu sou um Super Herói e consigo fugir do colo delas"... fiquei desarmada, tentei explicar-lhe de novo, mas não sei se com efeito se não. Sei que ele me sentiu triste e me pediu desculpa. Não sei se fará de novo. O pior é que é um comportamento tão normal nas crianças...

 

Ao longe o Hugo viu-nos, chegou e abraçámo-nos todos, ainda a tremer. Parecia um filme, meu Deus...E os putos na boa...

 

A vida (e as compras) continuaram a sua normalidade, não valia mais a pena manter os miúdos sobre aquela pressão, mas eu durante mais de uma hora ainda me senti sem forças. A adrenalina e medo foram tais que deixaram o meu corpo e mente exaustos. E o meu Amor por aquele carocolinho ainda aumentou mais nas horas seguintes e devo ter sido aquela mãe chata que não pára de agarrar, cheirar e dar beijinhos. Só eu sei ( e quem é mãe) a sensação que estes momentos nos fazem viver. é nestas alturas que tudo nos passa pela cabeça, que imaginamos que afinal os dramas podem não acontecer "só aos outros", que podemos virar estória de telejornal assim num ápice.

 

Passou, mas a até a escrever esta descrição me arrepio ainda e cairam-me umas lágrimas ao reviver os momentos.

 

Agradeço à equipa do Ikea loures,  especialmente à rapariga que se apercebeu de tudo e acionou o alerta e ao senhor que me trouxe o meu Luz pela mão, a  quem sinceramenete não tive tempo nem cabeça para agradecer convenientemente. Sabem que no momento, nem nos lembramos desses pormenores, nem sei sequer os nomes deles. No entanto, aqui fica expresso que achei que, a acontecer uma situação horrível destas, de um eventual desaparecimneto de uma criança, me pareceram muito eficazes e preocupados. Graças a Deus, acabou tudo em bem. Graças a Deus, estou aqui a contar esta história e não outra.. 

 

Os sustos servem para nos mostrar as prioridades, a minha é sem dúvida os meus meninos, nada há que seja mais importante. Aqui expresso a minha sentida solidariedade a quem perdeu algum filho, seja de que forma for. É sem dúvida o pior pesadelo de sempre...

 

 

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