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Barriga Mendinha

Barriga Mendinha

Pontapés, futebol e Luz (em 2010)

( A propósito da "doença" do Futebol e do patriotismo que se viveu este fim de semana, resgato mais um texto inédito daqueles que escrevi quando estava grávida do Afonso e que de vez em quando gosto de partilhar, por serem intemporais, apesar de datados, se é que me percebem. As gravidas, então, vão sentir tudo em dobro, acho ;)... mas espero que todos gostem da partilha, apesar de tudo fala de sentimentos e sensações universais... Estávamos em... 2010. alguém se lembra?...)

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Filho: 

 

Voltarei muitas vezes ao meu passado para te contar a minha e consequentemente a tua história e prometo te que tentarei encabeçar descobertas acerca da tua família do outro lado. Ui, se bem , que tendo o teu pai 7 irmãos.. tios que não acabam e andando todos eles mais dispersos do que bandos de pássaros atordoados, se poderá tornar difícil falar com um pormenor mais cuidado. Mas acredito que mereças tudo, até essa minha dedicação. Será a tua herança por escrito, que muito me alegra, poder oferecer te.

 

Mas hoje, hoje quero contar te um episódio não do passado mas do presente. Um episódio bem mais mundano do que os que te tenho vindo a descrever mas, provavelmente tão descritivo da sociedade em que vais nascer que talvez seja digno de nota. Até tu hoje te manifestaste na minha barriga. É verdade. Pontapé a toda a hora e se o teu era bem certeiro no centro da minha barriga , já que os dos jogadores da nossa selecção foram bem menos exactos do que toda uma pátria esperava hoje ao fim da tarde. É verdade, fica a a saber que a febre do futebol ataca desde há gerações a nação em que vais viver de tal maneira, que numa época de crise e alegado estado de depressão colectiva é, muitas vezes o desporto rei que faz esquecer as tristezas, as contas para pagar, o desemprego, o grau de infertilidade crescente, as taxas de juro altas, os calotes e os políticos corruptos. Ah pois é, acredita que em dia de jogo, e de Mundial, como tem sido o caso, todos os portugueses se juntam numa só folia e parece Natal, com tanta gente a fugir antes da hora do fecho das repartições, sedes e filiais dos respectivos postos de trabalho, com tanta cervejola e tremoço a ser comido nas esplanadas do bairro enquanto se assiste à partida e com tanto entusiasmo que só visto. Só que hoje… perdemos.

 

Portugal perdeu os 4os de final do Mundial da África do Sul.. e ainda por cima, com nuestros hermanos, os Espanhóis. Que vergonhaça nem imaginas! Nós que já os vencemos em Aljubarrota, que já lhes conquistámos rainhas, que nunca nos vergámos à língua… perdemos o “ juego” por um golo a zero. Pois é , para mim, acredita que é para o lado que durmo melhor, talvez só uma aziazita e isso mesmo, talvez só por esse ser um dos sintomas mais habituais da gravidez. Mas muitos e muitas devem ter ficado doentes. É o poder do futebol.

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 Fomos ver a partida, eu e a tua avó a um hotel chique e rodeadas de gente de bom trato. Ou influente se assim quiseres. Directores clubísticos, desportistas, gente que povoa as páginas das revistas sociais. Todos ficaram com ar de enjoado – e com razão admitamos – no final do jogo e até a tua avó, aquela que percebe tanto de futebol como eu de genética aplicada, tecia comentários como : “ Pézinhos de lã!!...” , “ Vocês estão é todos a escorregar em chocolate!!...”. Ultrajada e muito certa do que dizia. Claro que dava risota sem fim , cada vez que nos entreolhávamos e percebíamos que afinal, ganhássemos ou perdêssemos, aquele fim de tarde passado entre goleadas ( ou tentativa delas ) e cachecóis verdes e vermelhos, já ninguém nos tirava e que momentos assim entre mãe e filha ( e já os tivemos tantos!! ) são impagáveis. Ah, e desta vez já não só em sintonia dupla. Pois, é que tu, menino, passaste o jogo a dar o ar da tua graça e nós entusiasmadas como tudo com a mão na minha barriga e a gozar o prato de tu estares tão entusiasmado como a tua mãe.

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 Sabes, vais te chamar Luz. Afonso Luz. Espero que me perdoes se alguma vez te sentires lesado pela minha ideia tão “ iluminada”, sim porque é por isso mesmo que te baptizarei assim. Pela luminosidade quase brilhante que sei que trarás à minha vida. Quero que saibas que de ti, ainda na minha barriga sinto já o futuro a nascer. O teu sorriso radioso, a tua vida a cintilar. Todos os adjectivos que me povoam a mente e o coração ao falar de ti me remetem para a Claridade, a Felicidade, o Brilho… a Luz. Que és tu. Faço por agora esta ligação com o futebol, apesar de provavelmente, e em situações mais adequadas, lá à frente nesta nossa “ conversa” ainda ir abordar muitas vezes esta sensação de ti que me invade e que me faz ver tudo menos desfocado, mais claro.

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Mas agora a lógica é gira e é outra. Ainda não sei de que clube vais ser. Eu sou Sportinguista e o teu pai Benfiquista. Por isso, quero que percebas, que Não…ao teu nome Luz, nada tem a ver com o estádio da águia nem apela ao famoso Glorioso ( lá há quem o chame ), se bem , que acredita que pode ter sido por aí que o coração benfiquista do teu pai se tenha enternecido de modo a me deixar levar avante este meu muito bem coerente capricho..

 

Por hoje, de olhos a picar de cansaço e com um corpo já moído por um dia intenso e pelo peso que já acrescentas ao meu franzino corpo adormeço com o cachecol da selecção ali meio murcho a cair de um cabide , olhando cabisbaixo e envergonhado para mim, mas acreditando em duas verdades universais. Que a tua chegada me vai deixar mais feliz do que se ganhássemos o Mundial de futebol e de que aconteça o que acontecer tenho imenso orgulho em ser Portuguesa.

A voz ao Povo...



Se a revolução está mesmo a chegar, ainda ninguém o sabe. A todos nos apetece, mas todos temos medo dela. Mas também temos medo de um futuro na apatia de não ter lutado.

A Palavra vale o que vale.Devia valer muito. Já valeu mais. Hoje, sentimos que o Povo é mais uma estatística do que uma força real, falta-lhe o poder da Mudança na palma das mãos. Os governantes não nos temem. Os governantes não se misturam com o povo. E a desilusão maior, é que os “ do momento” apelidam-se de socialistas.

Como Mãe temo o Mundo que se constrói. O Futuro. Porque a falta de princípios, as demagogias na educação, a precaridade da saúde, de emprego, de soluções calhará cada vez mais vincada na vida dos nossos, por agora, inocentes filhos...

Como Mulher temo o Mundo que se construiu. O Passado. Porque é mais difícil recuperar, tratar, remendar.. do que construir um caminho sem buracos, rasgões ou pontos mal cozidos e por atar.

Como Cidadã temo o Mundo que se constrói. O presente. Porque é nele que nos temos que centrar para resgatar o Passado e apostar num novo Futuro. E muito, mas mesmo muito poucos conseguem vive no Agora. E só ele nos pode salvar.

Estas imagens ( tiradas pelo fotógrafo Hugo Caetano) foram o orgulho da minha família. Porque somos 2 adultos e um deles esteve lá. Eu não pude por questões de trabalho ( e isso nos dias que correm, é prioridade, basta olhar para o número vergonhoso de desempregados ), mas ele esteve lá e fez a “ minha Revolução”.

Porque o seu olhar e a sua lente viram o que os outros viram, mas sentiram-no de forma diferente. Os pormenores, as cores, as emoções, as tensões, os temores, as incertezas de um país que é o nosso, vistas pelo pai da minha filha. Na casa dos 30 anos e com medo que o resto da vida seja vivida num país.. que teve sempre tudo para chegar aos 1000 mas passa a vida quase sempre nos 100.

Se a voz do Povo é ainda relevante, não sei.. Mas que a Energia global deste povo descobridor o é, ainda acredito. Quero acreditar. Para que o Passado, o Presente e o Futuro ainda possam fazer sentido juntos numa frase. Como sempre o fez.. desde o princípio dos tempos...

Força Portugal! Força Portugueses! Nós vamos lá...

(Mais imagens em: Hugo Caetano Fotógrafo)