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Barriga Mendinha

Barriga Mendinha

A maturidade "só" aos 41? Ou será que ainda há mais que isto?

 

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A maturidade é uma coisa estranha. Até porque cada um a sente à sua maneira e no fundo, como tudo o resto, só sabemos que a temos quando damos de caras com a dita. Se a pudesse definir, acho que diria que é tipo assim um misto de nostalgia e alívio, tristeza e encontro com o essencial. Nem é fria nem quente, é morna. Um sorriso envergonhado mas convicto. Um "não gosto lá muito mas é melhor que me habitue e nela encontre coisas boas"... Como uma tarde de Outono na nossa cidade, fresquinha mas confortável com o seu familiar cheiro a castanhas no ar e as luzes que lá nos  vão alegrando um pouquinho, sabe-se lá porquê...

 

Esqueçam lá a cena dos 30, dos 40. A"h mas, para mim é quando nos temos que fazer à vida e saímos de casa dos pais"... "Pois, para mim, a marca de ter filhos é que é a mudança"... "As mulhes são mais maduras, essa é que é essa"... "Os homens são uns eternos miúdos e as raparigas evoluem mais rápido e tornam-se maduras desde cedo"... Bullshit! Tudo isso! Todas as ideias feitas... E sim, digo eu, que (só) agora me parece estar a encontrar essa tal "coisa". 

 

Já senti coisas do estilo. Coisas que achava conhecer até se virem mesmo colar à pele e perceber que afinal "não era bem assim como eu pensava". Só sabemos o que é morrer um ente querido depois de passar por ela ( e eu já passei). Só percebemos o que custa ( ou não custa, depende das situações) uma separação ou um divórcio depois de passar por ela ( e eu já passei). Só entendemos o que é um ataque de pânico depois de nos sentirmos impotentes ao passarmos por um ( e eu já passei). Só sabemos o que é o medo congelante depois de nos depararmos à séria com uma situação catastrófica ou assustadora ( e eu já passei). E... pronto.. só sabemos o que é a maturidade... quando ela começa a entrar em nós. Seja aos 20 ( raro), aos 30 ( até pode ser), aos 40 ( cada vez mais recorrente)... ou... aos 41... como eu!E sim, em todos os clichets anteriores, eu acreditei ( ou lá fui acreditando) que me encaixava, mas agora olho para trás e ... NNhhammm... nada disso.  Isso não quer dizer que fosse alguma parva ou inconsequente, nada disso. Mas, mas... maturidade é "isto" que agora se me está ( finalmente ufff...) a apegar e pronto.

 

 E o que sinto para o dizer assim tão de boca cheia? Para já, o não ter vergonha de o assumir ( sim, no fundo estou a assumir que fui uma "pita" até há bem poucos meses ;)). Depois porque estou a sentir uma coisa estranha tipo um "cansaço" generalizado, não um cansaço preguiço mas um cansaço certeiro, que me obriga a relativizar as coisas para "não me chatear" com o que entendi que me faz mal. Por outro lado, a impulsividade de virar costas, de refilar, de culpar os outros, de mandar vir, está a acalmar. Não pelos outros, que muitas vezes merecem... mas por mim, porque percebi que enquanto não conseguir resolver a vida, a vida se vai resolvendo por mim e não vale a pena lutar com ela.FOTOS_NOV_2017-2.jpg

Atenção que sinto também, outro sinal de maturidade (até me sinto estranha a dizer isto assim de boca cheia, mas olha, é o que é...): no seguimento do que descrevio aqui atrás, esta "calmaria" e aceitação não significa que esteja conformada ao ponto de não sonhar e querer mais e melhor. Antes pelo contrário, acredito mesmo muito que o futuro ( sejam 5 anos ou 50) poderá estar ao virar da esquina com novos e desafiantes momentos, que existem ainda pessoas fantásticas para conhecer, projetos que me realizem à espera que eu os toque e lute por eles...mas... não tem que "ser amanhã", nem tenho que impulsivamente virar costas ao que não me faz bem em prol de um desconhecido que pode ser bem pioro.. Aliás, essa tem sido um pouco a história da minha vida ahahah.... e demorar 41 anos a percebê-lo e mudar padrões foi dose... mas pronto. Parece-me que já está!

 

 Acho que esta é a altura da viragem! (ou mais uma na minha vida, que já teve tantas histórias que me marcaram e moldaram). A verdade é que os tais 40, são efetivamente o início do Outuno da vida.  E por mais que isso me assuste pelo fato.. de já terem passado 2 estações e ( Oh God!...) só haver mais uma pela frente, a verdade é que no respeita à energia que emana é essatamente isso, é assim que me sinto. Fazendo a analogia, acho que estou a entrar na época do conforto crocante da concretização e da ronha. E que raio quer isto dizer na minha cabeça? Bem... que finalmente estou um pouco menos inconformada ( mas ainda tenho alguma dificuldade em embarcar  na  ideologia da "carneirada", que sustenta a sociedade capitalista, mas, mas... enfim.... mas estou melhorzinha porque sinto que tenho mesmo que ser condescendente, para meu bem), que finalmente percebi que viver o dia a dia ( "o poder do Agora") pode e deve existir com a parcimónia de quem vive instalado num comunidade contemporanea), que apesar de nunca saber bem ao que vou.. no fundo, já sei bem o que quero.

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E pronto, é isto. Sinto a mudança. E acho que vocês, também a vão ver em mim, nos próximos tempos ( isto se eu a mostrar tão abertamente como costumo fazer.. sei lá, se calhar também isso muda um bocadinho.. perceber que nem todos nos querem bem e resgardar-me mais...). Anyway... até o fato de não me preocupar tanto com isso, com o respeito devido a todos os que me acompanham e seguem e que continuo a adorar, mas... sempre vivi muito procurando a aceitação de terceiros e agora esta entrada a pés juntas na Sr. Dona Maturidade, está me  a oferecer essa liberdade... a de ser Eu e de viver cada momento da vida como Eu acho que tenho que o fazer e não pelo que "os outros" ( família e amigos incluidos) pensam disso... E venha o que vier, que estarei de mantinha de braços abertos para lidar e receber..

 

Cortei o cabelo. E depois? Volta a crescer e além disso há gostos para tudo. Estou mais gordinha? E daí? Já tive um "corpo perfeito" mas era muito mais crítica comigo mesma e mais infeliz. Tenho um filho de cada pai. And? São felizes e integrados e eu sou uma mulher e mãe do caraças! Mudo de profissão muitas vezes? Pois é, sou multifacetada e gosto de tanta coisa... faço-me à estrada quando de um lado deixa de correr bem e não me castro porque vão achar isto ou aquilo, ah e cada vez mais acredito que não podemos ser definidos pelas profissões mas sim pelo que no fim da vida "fizémos" e deixámos no muno.... Sacanearam-me e são más linguas maldozas? Nada de guerras, só desprezo, porque é o nosso/ vosso Ego que nos/vos destroi... engulam o vosso veneno e... Live and let live! 

 

... Até porque esta famosa coisa da maturidade se atinge mesmo quando percebemos que todos, mesmo os que parecem "intocáveis", morrem e a vida dos outros continua depois disso. Estes meses têm sido pródigos nessa sensação de impotencia e estranheza. E as hipóteses? Duas: Ou entrar em pânico e fazer risquinhos na parede a contar os dias que faltam.. ou fazer desses risquinhos e desses dias algo agradável, simpático, amoroso e indolor. Escolho agora a última, que de grandes loucuras e intensidades, já foi a minha primeira metade feita. Ora vamos lá....

 

A alegre ambiguidade de uma vida que “lá vai correndo bem” entre pais e famílias separadas

Uns dias o coração fica tão pequenino e apertado que parece estar enrolado num daqueles saquinhos de vácuo: são as saudades a esmagar o peito, principalmente quando temos “deste lado” programas que ele gostaria de participar ou quando a mana chora por ele ( às vezes chega a por a mesa para quatro e insiste em “falar” com o irmão enquanto o faz como se ele estivesse em casa).

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Outros dias, sinto que ele precisa “da outra família” e se sente também feliz por lá (não estou a fazer demagogia, como muitas por aí fazem, acredito mesmo nisso!) e isso conforta-me o sentimento de mãe saber que, quando ele crescer, não perdeu vivências em nenhum dos lados. Este sentir é algo que se apura, sim, não sou tão boazinha e perfeita assim! Mas lá vou tentando e acreditem que nos dias que correm já é tão genuíno quanto as saudades. No fundo, só quero o bem do meu “puto” e que cresça com a cabeça no sítio.


Os meus filhos são oficialmente meio-irmãos! Irmãos (só) da parte da mãe mas, cada vez mais essa “treta” do ser qualquer coisa pela metade não faz sentido nenhum. Basta observar, por exemplo, num caso como o da nossa família, como o Afonso Luz consegue ser “inteiro” em ambos os lados (porque também do lado do pai tem um irmão mais pequeno) . Separei-me do pai do meu filho ainda grávida e vivi um processo que não foi fácil mas que tive de gerir e que ainda hoje tento “aperfeiçoar”. Na verdade, há um caminho que tento seguir e outro ao qual vou estando atenta a sinais aos quais não seguir, para onde não quero escorregar. Tenho visto relações entre pais separados tão feias, infantis, ignóbeis, irracionalmente destrutivas que, desde cedo (mesmo com razões fortes para a nossa rutura) decidi que essa nunca seria a linha de relacionamento com o pai do meu filhote. No fundo, o meu filho viveria a relação com o pai (e mais tarde com a família que ele foi criando também) da forma mais próxima e mais saudável possível. Acredito, que também por isso, o respeito se foi instalando também da parte dele, e mais tarde da mulher que tem ao seu lado.

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E aqui é que me tiro, a mim mesma, o chapéu (sem falsas modéstias), porque aprendi a gerir as crises, discordâncias, problemas com calma e muita paciência, porque, acreditem que para mim a prioridade não é a nossa (não) relação mas sim a felicidade do nosso filho. E agora, passados quase sete anos “disto” - de uns momentos em que tive que engolir sapos, de outros em que me controlei, de alguns ainda em me readaptei - até consegui que o “outro lado” se fosse moldando também. Sei que foi o caminho certo! E foi tão certo, que a cereja no topo do bolo foi que conseguimos chegar a uma plataforma de entendimento e carinho tal pelos miúdos ( de ambas as casas ) que a minha filha já dormiu umas quantas vezes na casa do pai do mano e é sempre muito bem recebida quando isso acontece. Até lhe chama também “Pai João”, imaginem!

 

Agora ando a tentar que seja a Matilde a entender como as coisas se processam, porque ela sim é só sentimento, não há cá racionalizações em crianças de quatro anos, e sofre bastante quando o mano se vai embora. Ainda é difícil explicar-lhe mas a pouco e pouco vai captando. Além de que muitas vezes arranjo estratégias para amenizar a ausência: ora vai para casa da avó, ora brincar com amiguinhas … Sei lá! No fundo, procuro entretê-la para que não sinta tanto a falta do companheirinho (como de embirrice, ou não fossem irmãos com idades próximas). Isso e gerir essa minha sensação de impotência e injustiça por ter com ela muitos “momentos de filha única” nos momentos em que ele está fora e com ele serem quase impossíveis e sentir que o tempo que lhe dedico é curto... Mas, enfim, essa é mais uma luta para a qual, acredito, conseguir mais dia menos dia algumas pequenas soluções apaziguantes. A ver vamos... Até lá vamos vivendo com a sorte, o amor e a ( tentativa de ) coerência no coração e na forma de nos relacionarmos. Com o foco nas crianças e não nos adultos. Nós já estamos (ou deveríamos estar) resolvidos… A eles, sim, temos de dar o nosso melhor para que venham a tornar-se seres completos, sérios, com as prioridades e os princípios no sítio e o menos confusos possível. quicksquare_2017117165318773.jpg

A vida, cada vez mais, passa por saber gerir situações e ser feliz ao aceitar as nossas cada vez mais sui generis realidades: familiares, sociais, profissionais... O meu esforço em “tudo isto” é esse mesmo: oferecer-lhes bases para que se adaptem e sejam felizes com quem são e com quem os

rodeia. Este é um bom objetivo e foco como Mãe e como pessoa, não acham?


( Texto escrito para a edição Outono/Inverno da revista Lux Crianças)