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Barriga Mendinha

Barriga Mendinha

Não há borracha que apague algo que foi escrito com a força de Deus...

 

 

Inevitável não ficar afetado com a morte de um filho de alguém. Essa morte, é contra-natura. Seriam os pais a partir antes dos filhos, é essa a lei natural da vida, mas ela parece, na realidade, uma roleta russa que muitas vezes se distrai e dispara ao disparate, acertando em quem não deve. Nos filhos. Nos dos outros. Dos que depois "disso" deixam também eles de viver e passam a sobreviver, que é mesmo a única opção para quem é assim esbofeteado pela vida.

 

"Dos outros", achamos sempre nós... "porque connosco é impensável". Até ao dia... No nosso mais profundo íntimo de mães e de pais, o nosso maior terror vive longuinquo (mas como uma sombra, sabem do que falo não sabem?...) e é essa a forma de lidar com o receio pavoroso. Conseguimos solidariezar-nos, oferecer o colo, as lágrimas até. E o alento que daí surge, é no fundo o exorcizar de um medo, um terror tão profundo de que um dia este tiro acerte a nossa família. E assim, a única forma de continuar a viver a nossa normalidade diária... é não acreditar que a nossa famíla também está "a jogo".

 

Mas está. E acho que é também por isso, que situações tão duras como a que nestes últimos dias acompanhámos de uma Judite de Sousa, jornalista de renome, figura pública e acarinhada do nosso país... e Mãe... nos afetou tanto. Me afetou tanto... ao ponto de ter insónias e pesadelos e quase não dormir há duas noites. Sim, estamos todos "a prémio", e desta vez a má sorte calhou-lhe inexplicávelmente a ela (s)...

 

A força das redes sociais, a força dos orgãos de comunicação enfatizaram desta vez, é certo, uma realidade horrível, mas que acontece desde que o Mundo é Mundo, desde que o destino ou o Karma existem (para quem acredita), desde que a destruição faz parte do vocabulário em paralelo com a palavra Amor. Sublinho este fato, porque acho que a dor de tal perda é tal, que muitas vezes não se fala propositadamente. Com medo "que os Deuses ouçam" e se lembrem "de nós". Só quem passa por ela grita em silêncio e encontra as forças inimagináveis da sobrevivência.

 

Talvez por isso, ainda não tivesse aqui abordado este tema. Não que tantas vezes não me lembre com o carinho da dor de algumas Mães que sei que se perderam, perdendo os seus filhos (as próximas e cujas histórias conheço bem, quase de cor... e as longuínquas, cujas histórias me são alheias mas das quais não deixo de sentir a dor coletiva que se parece colar ao meu próprio medo cada vez que penso nisso)...

 

A verdade é que num blog que celebra o nascimento, a maternidade, a alegria, abordar a morte de um filho, é trazer uma núvem escura a quem vive o céu azul da Primavera.

 

Mas hoje não. Hoje o país está de luto. Por esta mulher, que perdeu o filho num estúpido tropeção numa piscina. E também pela Mãe de 2 meninos ( dois meu Deus!!) que faleceram vítimas de um acidente com uma moto quatro. E também pela criança que morreu num incendio.  E também... pelas outras mães que todos os dias, por aí, em Portugal e no mundo, se perdem a si, perdendo os seus filhos "porque sim". Seja por doença, por guerra, por acidente. Seja pelo que for.

 

O meu coração está triste. E está com elas. E garanto-vos que não só hoje. Todos os dias. Porque todos os dias o medo de que algo aconteça aos nossos é tão grande... que a única forte estratégia é... tentar não pensar nisso, para que os dias fluam, para que a vida corra, para que haja lugar a sorrisos e sonhos...

 

Hoje, depois de mais uma noite de insónias, a sofrer uma dor que não é a minha, mas que no fundo também o é, pela incompreensão desta falta de lógica e imperfeição no "chip do mundo" ( não devia ser permitido por "lei de Deus", que um filho, tivesse a idade que tivesse, morresse antes dos seus progenitores)... aqui deixo a homenagem sentida, a solidariedade possível, as lágrimas deixadas cair pelo rosto e escorridas pela alma, de quem ao Amar tanto os seus, sofre através daquele fio invisível.. que une todas as Mães e mulheres do mundo (tenho também pensado muito na namorada/mulher do André, ele que era do círculo de amigos do meu Hugo e que tinha exatamente a mesma idade dele).

 

Independentemente da classe social, da idade, do país, da cultura, das creças de cada uma ( e um... porque os pais também o sentem sem dúvida), os nossos filhos são a nossa vida e a continuação da nossa existência. E quando esse elo se quebra, quebramos nós também com ele.

 

Deus proteja todas as mulheres que passam tamanha provação, sejam elas quem forem.  Para mim, são mulheres como estas que personificam a força e a coragem. Heroínas, que se levantam, sem ter vontade de o fazer. Simplesmente porque, apesar de tudo.. a vida deve ser honrada. E vivida, nem que seja... por eles, esperando pelo dia de abraçar de novo os seus anjos desaparecidos da terra.

 

Hoje é uma segunda feira feia, triste. Mas... a vida, o dia a dia, as tarefas correm, essa é que é a verdade. E têm que correr, continuar. E os nossos que estão cá merecem-nos a nossa boa energia. Mais que nunca, não lhes podemos transmitir este terror de Mãe. A mim, no entanto, só me apetece, não largar os meus filhos, nem por um minuto. O medo não deixa de me correr pelas veias, essa e que é essa...

 

Não há borracha que apague aquilo que foi escrito com a força de Deus... ;( Só há a esperança de que a dor se transforme na paz do descanso...