Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Barriga Mendinha

Barriga Mendinha

A Ajuda de Mãe, recebeu-nos para o almoço de Natal

 

Passaram já 3 dias e acreditem, que são poucas as vezes que o que fica de um acontecimento é maior do que as palavras que possa escrever. Pelo menos para mim. Que gosto de falar e escrever... E esta foi uma delas. Por isso demorei estes dias a tentar perceber o que queria mesmo passar acerca destas curtas mas sensíveis horas. O que iria escrever.

 

Explico-vos que tudo começou por motivos particulares, pessoais mas essa foi só a forma de ligar a ignição, porque a vontade, uma muito grande vontade me persegue há anos para fazer do Natal algo com verdadeiro significado.

 

Sim, mesmo com filhos, todos me questionam acerca disso... Sim, claro que os filhos restituiram, sem dúvida, alguma magia ao Natal, mas acreditem ou não, também sublinharam exatamente aquilo que me queixei acerca desta quadra durante tantos anos. Porque, nas verdade lhes queria dar outra educação, outras diretrizes... e é tão difícil vivendo eles numa sociedade que os "engole" e lhes formata a forma de estar na vida...

 

O consumismo exagerado. A obrigação de dar prendas. Não uma, não duas, não três... mas muitas prendas. Poucas são as pessoas que sabem comprar com consiência, que são "bons dadores" de presentes (aqueles que te estudam e sabem o que adoras, precisas ou que te sensibiliza...). Odeio assistir à corrida aos centros comerciais (e sim, faço-o o menos possível, acreditem). E mais ainda... tendo em conta a situação económica gritante em que o país se encontra, saber que a média gasta em prendas, festa de consoada, decorações e afins este ano foi... 394 euros ( não meus amores não é pouco, tendo em conta que há milhares a viver de ordenados mínimos) é incomodativo... 

 

Ok!! Mesmo assim gasta-se, gasta-se, com coisas que tantas vezes ninguém dá a importância devida. E não me venham dizer que é a Festa da Família. Sim, claro que assim o fosse no coração de cada um e a União continuasse a ser o mote... mas raramente o é. Quando a família é efetivamente unida., quando se complementa, quando os membros se amam, ajudam, partilham experiências tanto agora, como no resto do ano assim tem toda alógica. Agora  digam-me, em consciência.. quantas destas festas de Natal.. o são... só por ser?!!

 

Enfim... estas são efetivamente as explicações possíveis. Sim, porque isto da Solidariedade, não pode também surgir... só porque é giro, fica bem ou é suposto.. ou é Natal. Os "porquês" de cada um existem sempre, não me venham com tretas.

 

Bem, mas estamos então a falar do Natal, não é? E dos sentimentos que nos últimos anos me agarravam, mal a época e a música de sininhos em todos os cantos começava (grrrr... que irritante...).

 

Este ano, finalmente agi, em vez de pensar só na pena que tenho disto tudo, em vez de me lembrar com sinceridade de quem não consegue ser feliz na época das "festas felizes". Um pequeno gesto, o meu, eu sei, não mudará o mundo, mas a verdade é que todos os grandes passos são precedido pelo embalo. E este acredito ser o embalo. Para mim...

 

O tal sentido que eu queria encontrar e que... encontrei. Porque o dia de Natal foi dedicado a quem me pareceu precisar mais de mimos e sorrisos sinceros que algumas das pessoas que eu amo... mas que vejo todos os anos e com quem posso e prefiro partilhar momentos mais sinceros e genuínos. E que não são orfãs, e que não sofrem agressões e ameaças, e que não passam fome, e que não são postos de parte pela sociedade, e que não passam privações, frio ou lacunas fortes emocionais...

 

Decidi 2 dias antes.. tudo muito "à Mendinha" portanto  ;)... Contatei a eng Madalena Teixeira Duarte, a atual diretora da Ajuda de Mãe e propus-me a almoçar com as Mamãs (umas adolescentes outras já mais crescidinhas, sendo que a mais velha... tinha 23....), levando-lhes boa disposição, a minha Matilde para brincar com os filhotes delas (o Afonso só não foi porque o dia 25 foi passado com a família do pai) e a minha irmã Mariana a acompanhar-me. Só isso... já as fez sair da rotina, fartaram-se de me fazer perguntas, sobre a carreira, sobre os bebés... tivémos conversas triviais mas tão saborosas... como em qualquer mesa de Natal... não nos esqueçamos que elas, são neste momento e quem sabe, por mais alguns e bons anos, a família umas das outras...

 

Mais... consegui falar com duas marcas que me têm acompanhado nos últimos tempos e que sabia que não  me deixariam mal: A Mustela que ofereceu a cada uma delas um kit para os bebés e um creme reafirmante para elas, e a Hollywood Nails, que as presenteou com um verniz que muda de cor conforme o calor!! E pois... digo-vos assim sim, vale a pena dar prendas. Assim sim, sei que estes pequenos mimos as vão alegrar, sabem porquê? Porque elas têm efetivamente tão pouco. Não trabalham, estão num processo difícil de aceitação dos filhos, da nova vida, muitas vezes frutos de acasos pouco agradáveis, violações, relações conflituosas e até onde a agressão era o prato do dia... Estão a "reprogramar-se para a vida", para uma vida onde as crianças que geraram terão de ser o mais importante, mas uma vida onde elas querem e têm todo o direito a ser felizes e bem resolvidas, mesmo que os seus próximo s as renegem.

 

Sim, para elas estes presentes foram, acredito muito importantes. Mas mais importante ainda, acredito, tenha sido o fato de perceberem que Mães mais velhas, mais ocupadas, aparentemente modernas, cosmopolitas, profissionais... entendem o que se passa "daquele lado", que se preocupam com o seu vazio, com os seus receios, angústias, questões. Sim, porque eu representei um bocadinho disso tudo, entendem? Eu não sou uma monitora, uma voluntária, uma professora.

 

Ser Mãe é a magia mais grandiosa de toda a vida, mas por isso mesmo, também pode ser a experiência mais aterradora. Imaginem só, se nós nos nossos vintes e muitos, trintas, fomos abraçadas pelas dúvidas.. imaginem estas meninas. Muitas abandonadas pela própria família, namorados e amigos...

 

Entendem, agora porquê, para quem se sensibiliza tanto com a Maternidade, a experiência deste Natal sertão difícil de colocar por palavras?

 

Foi bom. Só isso, apesar de tudo. Só. E tudo...

 

Acredito que seja para repetir. Acho que os meus Natais (e não só, obviamente, mas falo do Natal pelo simbolismo inevitável) vão, a partir deste ano, fazer muito mais sentido. E espero que os meus filhos, conforme crescerão no seu tamanho e no seu entendimento do Mundo, me consigam ir acompanhando nesta jornada de fazer o bem. E que os valores que tanto me assustam na sociedade atual não corrompam o "trabalho" que eu vá fazendo com eles no que a esta sensibilização diz respeito...

 

Pode ter sido um "pequeno-nada", mas foi o meu "Grande-pequeno-nada"  deste Natal. Maior que o urso gigante que  ofereci aos meus miúdos, maior que a brincadeira da chegada do Pai Natal. Maior que a pequena e orgulhosa ceia de dia 24 que ofereci à família mais próxima na minha amada casa/refúgio que senti tão quentinha nessa noite...

 

A verdade é que foi tão compensador que, será, sem dúvida o primeiro passo para esta minha nova relação próxima com esta Associação e quem sabe com outras.

 

É engraçado, que nas ações solidárias, todos acabamos mais cedo ou mais tarde por encontrar a "nossa causa". E eu acho que a minha é mesmo esta. Mulheres ( tenham a idade cronológica que tiverem) que vivem a Maternidade e a Grandiosidade de educar os seus filhos... sozinhas. E olhem que às vezes a solidão existe, mesmo quando estamos rodeados de gente... 

 

Ser Mãe é tão bonito que tem e deve que ser partilhado. E por isso, que também sejam abençoados/as os verdadeiros e as verdadeiras voluntários/as (adorei conhecer e ver o carinho com que a Isabel e a Elena tratam estas "miúdas" e que também nesse dia abdicaram das suas "verdadeiras" famílias para estar com estas 10 Mães e seus rebentos) e quem se dedica de corpo a alma a quem... não tem ninguém.. nem no Natal, nem no resto do ano.

 

Beijos a todas as meninas com quem partilhei o almoço de Natal deste ano. Das meninas da família Mendes (Rita, Matilde e Mariana). Não imaginam o que partilhar este momento com vocês... significou para mim.

 

Não deixar nunca de Amar... Essa é a lição. Nunca...

É mesmo o Amor pelo Próximo que faz mover o Mundo do Bem ...