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Barriga Mendinha

Barriga Mendinha

"Fazes parte das nossas veias" Feliz Natal amor!




Há coisa de 2 anos atrás conheci um menino. Mais precisamente há 2 anos e meio. Ele surgiu na minha vida assim de rompante. Chorando um dia, sorrindo o outro, fazendo a minha vida valer a pena, mesmo quando não me deixava dormir e eu resmungava cansada ou quando me tinha que debater com uma solidão típica de mãe solteira.

A esse menino, quis o destino (e a mãe) chamar Afonso Luz. A esse menino ofereceu, também, o Universo, o poder de melhorar o que estava à sua volta e os que estavam perto de si. Era realmente uma Luz.

Digo que o “conheci”  nessa altura, porque, no fundo sempre soube que ele viria encontrar-se comigo, só não sabia bem quando, nem como, nem em que condições. E ele veio. Na altura certa. Porque mesmo com dificuldades, a  altura em que se conhece o Amor incondicional só pode ser a única, a hora certa e... a nossa própria mudança acontece. Eu era uma pessoa diferente da que sou hoje. Tão diferente. A essência era a mesma, mas as prioridades, sonhos, passos e decisões tomadas eram radicalmente ao lado. Foi o meu abrir para a vida eterna. Sim, porque, como me disse um dia uma amiga, "Ser mãe torna te Eterna“...

A minha gravidez foi passada num misto de solidão repleta de sonhos e instabilidade emocional mas certa de que aquele era o caminho. Sem o pai dele por perto, devido a uma opção muito pensada mas sofrida, desde cedo este menino ainda me ficou mais colado à pele. Ao coração. À vida, que deixou de fazer sentido sem ele.

As dificuldades logísticas, profissionais, até familiares existiram nesta fase. Como existem quase sempre na vida de uma artista, freelancer, que vive mês a mês procurando a realização pessoal, profissional e financeira. Mas agora era Ele o meu centro.

O apoio familiar (Mãe e irmã principalmente) foram essenciais nos primeiros tempos. Senti-me um pouco menos sozinha e tive com quem partilhar o medo que sempre me assombrou de que me tivesse que separar deste meu novo e intenso Mundo. O meu filho, o seu cheirinho, o seu palrar, a sua alegria, as suas descobertas, que eu queria sentir e acompanhar dia a dia perto de mim.




Mas cedo vieram as visitas ao pai. A opção foi minha e tinha, por isso, ainda mais que respeitar estas saídas apesar de ficar com o coração na boca. Sabia que, ao ter tomado este caminho, o da separação (acredite, quem me aponta o dedo que não havia outra opção. Uma criança não deve ser submetida a discussões e ambientes tensos e impróprios), o pai teria o direito de o ver, visitar, levar para sua casa, passar tempo com ele. Ele seria também importante no seu desenvolvimento e descoberta emocional. E assim foi. 

Logo aos 2 mesinhos, o pai começou a passar fins de semana com ele e, mesmo a saber que ele era bem tratado, amado, acarinhado... não só a minha alma, como os meus olhos ficavam muitas vezes a chorar: Sou mãe, não consegui conter este sentimento.






Dois anos passaram. Para mim, parece pouco tempo mas não me posso esquecer que para o meu bebézão.. 2 anos equivalem à sua vida inteira. Uma vida que já passou por tanto, mas que eu tenho a certeza de ter conseguido proteger das confusões, más energias, discussões, tristezas. 

Tem crescido saudável e aprendido tanto. Sinto-me tão orgulhosa dele. E acho que, no fundo, também de mim, que ao passar pelas “minhas“ tempestades o tenho deixado sempre debaixo do telheiro, a ver a turbulência passar ao largo sem se aperceber sequer do que se passava...

A “pessoinha” que se está a tornar é muito bonita. Já a descobrir princípios, a distinguir o correcto do incorrecto a entender quem o ama e a saber como lidar com uma Mãe e um Pai que não vivem juntos. Um “Papi“ e amigo que o adora e que é pai da nova mana que nasceu na sua vida, uma tia que está na casa que também é a dele fim-de-semana sim fim-de-semana não... vários avós... uns biológicos, outros de coração, primos, amigos... enfim... a verdade é que lá se vai, para orgulho da Mãe adaptando e sendo feliz!

Chegámos agora ao Natal. O 3º da sua ainda curtinha e intensa vida.

O 1º passou inevitavelmente junto a mim, ainda o amamentava, tinha só 2 mesinhos. Vestiu se com um baby grow de pai Natal e foi... O ano da Mudança. 

O 2º Natal também esteve só por cá, porque o Pai estava a viver em Londres e mais uma vez, a casa da minha mãe e os nossos mais próximos acolheram a nossa felicidade no dia 24. No dia seguinte, a 25, foi o primeiro contacto, com aquela que viria mais tarde a ser a nossa família de coração, a do pai da Matilde (no ano passado ainda nem sonhávamos que iríamos ser pai deste doce de menina um ano depois...). O Afonso começou, nessa altura, a entender que o Natal era uma época diferente,  de festa, de união.




Mas este ano a época será diferente. Pela primeira vez, o meu caracolinhos vai passar esta quadra longe de mim. Com toda a legitimidade do pai e da sua família, que depois da incursão no estrangeiro, está a estabilizar a sua vida e como tal a firmar laços com o seu filho. E ainda bem. Racionalmente, é obvio que prefiro um pai presente e que o ame do que um ausente e que não se importe. Emocionalmente... não deixo de sofrer com a sua ausência.

Este ano, a vida e as escolhas da mesma, trouxeram-me uma Estrela, a Matilde. O meu segundo filho, a família que sempre desejei... os amigos e familiares dizem-me: “Não fiques triste no Natal, agora tens a Matilde...”. Quem diz isso, não entende que ela não o substituirá, nem o contrário nunca acontecerá. Acontece-me pensar, com algum sentimento (acho que compreensível) de culpa, se a Matita será mais feliz que ele só porque tem os pais juntos, porque vivi uma gravidez lado a lado com o seu pai... 

Sinto-me, num primeiro momento impotente e instável neste género de emoções, mas depois, percebo que não posso fazer nada, a não ser dar-lhe a educação e as explicações adequadas para que ele saiba lidar com isso (e também a irmã, que chegará a uma época da vida em que não perceberá muito bem porque é que o mano não está sempre presente, porque é que tem outro quarto e outra casa e outros pais, porque é que às vezes têm uma vida tão parecida e outras vezes tão diferente).

Os Natais, por exemplo. Este Natal, tão estranhamente ambíguo para mim. Tão mais triste por não ter o meu Anjinho de Luz ao meu lado. Tão mais feliz por estar acompanhada com a nova Estrela do meu Céu. Um filho longe. Um filho perto. UM só coração para viver as duas realidades.

Mais um ensinamento da vida, que a mim, sistematicamente,  me tem ensinado da forma  mais irónica, curiosa, kármica e ambígua que... não podemos ter tudo. Eu pelo menos, não posso. Nunca pude. E agora só o sublinho de forma mais dolorosa mas também mais tranquila. Uma dor madura  que tenho que aceitar para que todos passemos bem por tudo isto.

O meu coração sofre porque o Afonso não está comigo. Foi embora hoje e só voltará na 3a-feira, depois da noite de Natal, da consoada. Sei, no entanto, que ele estará contente e entretido na família do pai. E isso apazigua-me um bocadinho. No fundo ser mãe também é isto: Nunca mais seremos um Ser à deriva sozinho por aí a navegar no mundo com as suas próprias e egocêntricas decisões. Nunca mais estamos sós. Para o bem. E para o mal.

Amo-te  muito meu Filho.

Feliz Natal para ti! Desejos do núcleo duro cá de casa, deste lado do teu coração... Estarás a cada minuto no coração. 

Fazes tão parte de nós como as nossas veias.

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